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A revolução do quartzo

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Controlar o tempo é uma das maiores quimeras da humanidade. No entanto, se o seu controlo nos escapa completamente, o mesmo não podemos dizer da sua medição. Marcar o ritmo dos dias e das divisões que dele fazemos é um objetivo primordial da humanidade desde tempos imemoriais.

Desde o mais antigo relógio de sol, conhecido há mais de 3.000 anos, até ao mais moderno relógio eletrónico, muitos foram os marcos fundamentais de tão rica história. De entre todos esses marcos podemos apontar como exemplos a invenção do relógio de pêndulo, por Christiaan Huygens, em 1656, na Holanda, a partir de estudos sobre o movimento do pêndulo, iniciados pelo célebre cientista e astrónomo italiano Galileu Galilei. Assim como a invenção do relógio de pulso, em 1814, por Abraham Louis Breguet, encomendado por Catarina Murat, irmã de Napoleão. No entanto, só no início do século XX se assistiu à generalização do uso deste relógio de pequenas dimensões.

Os relógios mecânicos

Um dos problemas principais do relógio de pequenas dimensões foi a dificuldade em miniaturizar um mecanismo tão complexo como é o relógio mecânico, num complexo sistema de mais de uma centena de pequenas peças, destacando-se o balanço, a espiral e as rodas. A energia é fornecida por uma mola; o movimento de “dar corda” transmite a essa mola uma tensão (energia) que libertará lentamente através do movimento normal de descompressão. Assim, a energia paulatinamente libertada transmite-se às rodas que geram o movimento dos ponteiros do relógio. O problema é que a necessidade de manter a tensão da mola faz com que seja necessário “dar corda” ao relógio uma vez por dia ou, no máximo, ao fim de trinta e seis horas. Mesmo assim, é natural que na maioria destes relógios se perca mais de um segundo por dia.

A revolução do quartzo

Em 1880, Pierre Curie fez uma descoberta fundamental na história do relógio: que um cristal de quartzo consegue transformar um impulso elétrico em vibrações regulares e vice-versa. Este princípio da Física levou à criação dos primeiros osciladores de quartzo, que basicamente são circuitos eletrónicos capazes de criar sinais elétricos de frequência muito regular e precisa. Ademais, Pierre Curie provou que esse processo era independente de alterações de variáveis externas, como a pressão atmosférica ou a temperatura.

No entanto, só muito mais tarde, Warren Marrison criou o primeiro relógio de quartzo, ao conseguir gerar impulsos elétricos periódicos controlados pela oscilação do cristal. No entanto, esse relógio de Marrison apresentava um problema incontornável: tinha o tamanho de uma pequena sala. Ainda não era possível, com a tecnologia da época miniaturizar os seus componentes.

A transição para o relógio eletrónico

A transição para o relógio eletrónico conheceu várias etapas distintas:

O primeiro circuito integrado

Este problema só viria a ser contornado nos finais da década de 50 mas por caminhos diferentes: em 1958, Jack Kilby, na Texas Instruments e no ano seguinte Robert Noyce, na Fairchild Industry, criaram de forma independente e sem conhecerem os trabalhos de cada um, o primeiro circuito integrado: um circuito eletrónico em miniatura composto por materiais semicondutores que viria a dar origem aos universalmente conhecidos “chips” e “microchips”.

A primeira bateria miniaturizada

Outro contributo decisivo surgira em 1957 quando a fábrica norte-americana de relógios Hamilton criou a primeira bateria miniaturizada. Estavam lançadas as bases, em definitivo, do relógio não mecânico. O relógio Ventura, da Hamilton foi lançado com o contributo mediático de Elvis Presley e permaneceria como um marco determinante na história dos relógios.

O protótipo de Hetzel: o primeiro relógio eletrónico

Entretanto, na Suíça, ainda na década de 50, Max Hetzel, engenheiro eletrónico natural de Basileia, apresenta um relógio que escapava, pela primeira vez, ao reinado dos relógios mecânicos, propondo um aparelho baseado num sistema eletromecânico. No entanto, os fabricantes suíços, habituados às suas preciosidades de relojoaria mecânica, recusaram a proposta.

O protótipo de Hetzel funcionou como um verdadeiro marco de transição, pois marcou o início da revolução eletrónica. Ele emitia uma frequência de 200 Hz e funcionava com uma pequena bateria de 1,5 V. Um minúsculo pino impulsionava (ligado a um dos braços de um pequeno diapasão) uma engrenagem de 120 dentes minúsculos que, por seu turno, movimentavam todos os outros componentes. Este modelo baseava-se, portanto num princípio básico muito simples e de raiz idêntica ao do pêndulo: o movimento de diapasão.
Os fabricantes suíços recusaram a proposta, que foi aceite pela empresa norte-americana Bulova que nos anos 60 começou a comercializa-lo sob a forma do relógio “Accutron”. Mais tarde os suíços haveriam de pagar direitos avultados para à Bulova para o uso do movimento Accutron.

O nascimento dos relógios de pulso de quartzo

Entretanto, a competição agudizava-se e a indústria suíça tinha a resposta preparada: em 1962 foi fundado o “Centre Eletronique Horloger” para pôr em prática o projeto de fabrico de relógios de quartzo, desafiando os movimentos de diapasão que tinham estado na base dos trabalhos de Hetzel.

Daí surgiu o primeiro relógio de pulso de quartzo, o modelo Beta 21. A sua precisão confirmou-se ser muito superior à dos melhores relógios mecânicos e venceu sucessivamente as diferentes competições de precisão que usualmente se disputavam naquele país.

Porém, um dos maiores obstáculos permanecia na sombra: a realidade não se adequava a estes saltos tecnológicos. Ou seja, a indústria relojoeira suíça estava demasiado adaptada aos tradicionais relógios mecânicos e não se operou a necessária revolução nas práticas industriais, pelo que a indústria continuou a produzir relógios mecânicos.
Lentamente, face a esta recusa em abandonar os processos tradicionais, a indústria relojoeira suíça caía numa crise sem precedentes. Desta maneira, os relógios de quartzo triunfavam assim como os eletrónicos, cada vez mais baratos.

O regresso dos relógios mecânicos e o triunfo da tecnologia suíça

Mas a indústria suíça acabaria por, finalmente, reagir, no início dos anos 80. Nessa altura emerge um nome fundamental: Nicolas Hayek. Este empresário suíço nascido no Líbano operou a fusão das duas maiores empresas suíças de relojoaria: a ASUAG e a SSIH, fundando um grupo empresarial inicialmente denominado ASUAG-SSIH e que levaria à criação do famoso e triunfal Grupo Swatch. Nicolas Hayek foi o grande obreiro da marcha triunfal da indústria suíça através do lançamento de sucessivas marcas de sucesso: Swatch, Omega, Longines, Tissot, Hamilton, Calvin Klein, entre outros.

O relógio Swatch, lançado no mercado em 1983 foi uma verdadeira “bomba” comercial, com a sua pequena caixa de plástico de apenas 51 peças, despertando um interesse inusitado, não só pelo seu preço acessível como pela grande variedade de modelos. Até à atualidade, os relógios Swatch encantam o público com as suas cores apelativas e a sua adequação às diferentes tendências da moda.

No entanto, a indústria suíça seguiria também outros caminhos. Depressa se percebeu que a relojoaria poderia ser um campo de intervenção artística, numa espécie de aproximação à joalharia, explorando mercados mais sofisticados e exigentes. Assim se foram desenvolvendo os relógios mais caros do mundo, baseados na tradição da relojoaria mecânica. Por outras palavras: o apreço por tudo o que faça apelo ao revivalismo e às artes manufatureiras podia ser um campo de investimentos atrativo. Explorando assim mercados de luxo, a indústria suíça de relógios acabou por recuperar o primeiro lugar mundial neste setor.

Em conclusão, podemos afirmar que a indústria suíça acabou por cair numa crise da qual se reergueu de forma triunfal por dois meios: pelo triunfo do relógio de quartzo através do grupo Swatch e pela adoção de uma estratégia de exploração da “gama alta” dos relógios mecânicos, associando-os a uma indústria de luxo e requinte.

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